As Gaiolas
Por:Czar Milch
O Autor:
David Leite, nascido e criado em Jandira.
É especialista em Arte e Conceito de Game Design pelo Instituto de Artes da Califórnia e certificado em Escrita Transmídia pela Universidade de Michigan. Participa de antologias e publicações, como A Arte do Terror e Revista Literalivre desde 2017.
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Conto:
Era sua missão acolher a alma dos sonhadores. Talvez fosse um anjo, como muitos o nomeava em suas orações a pedir descanso, mas lhe parecia um rótulo impróprio. Lembrava das hierarquias celestes, das hostes de que uma vez ouviu. No entanto, no plano árido que solitariamente dominava, jamais alguém o visitou. Na eternidade em que exercia seu ofício, nunca ninguém lhe instruiu. Ainda menos o condecorou com asas, aureola e vestes níveas, ou qualquer outro artificio que sugerisse algo mais próxima do que imaginava a figura angélica.Na realidade, sequer se reconhecia. Não era capaz de distinguir em si, forma diáfana, algo ou alguém, e se não fosse uma latente consciência sequer poderia estar seguro do próprio existir seu. No entanto, sabia que ali estava, sabia que existia, como alguma entidade incorpórea, naquele plano límbico.
Sabia também das imagens dos anjos. Pois era seu papel, ali, estar lá para os sonhadores do duro plano da realidade. Ali, exercia a atividade de vê-los em berço de ilusão. Neste terreno obscuro onde tudo o que o sonhador via e sentia enquanto desperto tomava a eloquência caótica onírica. Ele, como observador impassível, investigava as formas e cores e nomes e estórias de quem entrasse em seus domínios. Não poderia se considerar um protetor. Não guardava ou protegia os não despertos de nada que ali surgia. Era um de plano de criação e caos. Não caberia a ele protege-las. O sono dos justos, que muitos falam, a fantasia protegida dos bons... Estava a eternidade ali a desempenhar uma função qualquer, mas poderia afirmar que esse enredo também era uma falácia. O viver do sonhar era árduo para todos. Crentes, incréus, bons e maus. Isso ele podia afirmar, e nada fazer.
Aliás, nada fazia. As janelas por onde vislumbrava o idílio alheio espocavam no ar, por todo o lado. Sem qualquer intervenção sua. Resplandecentes espelhos de molduras nebulosas que surgiam a cada segundo. Cavidades brilhosas no breu, onde filme