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Conheci o coronel Sebastian Glück há pouco mais de um ano, precisamente a 24 de Novembro. Era um dia de muito sol. Não é por isso que me lembro bem da data, não é por causa dessa luminosidade febril, que de resto nos acompanharia quase todos os dias, contrastando com um espírito sombrio, lento mas inexorável a descer sobre nós, como uma maldição difícil de dissipar. Lembro-me porque foi nas vésperas de Ngomano, o primeiro combate em que participei; por isso jamais me sairá da cabeça. O combate e o coronel, devo dizer.
Desde Chiwata onde o general LettowVorbeck concentrara as suas forças após as escaramuças de Mahiwa que Glück andava na boca de toda a gente pelas melhores e piores razões. Aparentemente, soubera tirar proveito da reputação conquistada em combate, que lhe merecera um elogio público do próprio Lettow, mas, por outro lado, parecia ter a infortunada arte de se meter nas situações mais complicadas. Ficou famoso um episódio em que, de garrafa em punho e transtornado pelo álcool, insultou o general Wahle à entrada do comando, acusando-o de pôr de lado a eficácia em nome de princípios que ninguém sabia bem para que serviam. Os companheiros de libação ainda tentaram suavizar o incidente, procurando arrastá-lo para longe ao mesmo tempo que apresentavam desculpas a Wahle. Este, muito vermelho e dando sinais de lhe ir faltar o fôlego, ficara sem saber como reagir. E eis que Glück consegue desenvencilhar-se dos braços que o seguravam, voltando à carga: Com generais daquele calibre jamais ganharíamos a guerra!, terá dito.
De modo que o assunto teve mesmo de seguir para as instâncias apropriadas, onde mais uma vez foi Lettow quem o tirou de apuros, conseguindo que a pena, a princípio pesadíssima, ficasse reduzida a um mero destacamento para os arredores de Lindi, em missão de reconhecimento das posições inimigas. Não sei como Lettow convenceu Wahle a desdramatizar o assunto; ou melhor, seio: Wahle era um velho general já retirado, exsudando moral e bons princípios por todos os poros, realistado devido apenas à escassez de oficiais e à pressão dos acontecimentos. Okommandant, apaziguador, terá argumentado que era preciso relevar, ter em conta que os homens andavam todos com os nervos em franja. Não fosse isso, mais a fidelidade canina que Wahle devotava a Lettow, e seguramente que Glück teria não apodrecido na prisão (nessa altura era já praticamente impossível permanecer mais que um par de dias em qualquer lugar, e portanto deixara de haver prisões) mas sido sumariamente fuzilado. Afinal, tratava-se de uma evidente insubordinação na frente de combate.
Enfim, quando cheguei ao comando já ele havia cumprido ocastigoe errava por parte incerta, deixando atrás de si um rasto de histórias tão ou mais mirabolantes do que esta. O verdadeiro mistério, aqui, é o que levava Lettow o grande